Inteligência é definida em termos da capacidade de lógica, pensamento abstrato, compreensão, aprendizado, conhecimento emocional, memória, planejamento, resolução de problemas e – quero destacar – comunicação. Em Zoologia, cientistas usam evidências de comunicação para se avaliar o grau de inteligência que uma espécie desenvolveu ao longo de seu processo evolutivo. Por exemplo, golfinhos, baleias e chipanzés são capazes de interagir entre si de forma relativamente sofisticada, indicando que tais espécies são particularmente inteligentes.
Um debate é um jogo intelectual onde, diante de uma proposição ou tema, dois indivíduos apresentam argumentos. Um contra, outro a favor. Em geral debates são públicos e, ao final, a platéia ou um painel de jurados decide qual dos dois venceu o debate. Um debate é uma degladiação mental; portanto, um sofisticado processo comunicativo e competitivo de apresentação lógica de idéias.
Baseados nas definições acima, chegamos à lógica resposta ao título deste artigo. Sim, inteligência é necessária para se debater qualquer coisa. Em especial, precisa-se de muita inteligência, se o objeto do debate é um dos mais polêmicos e controversos que a mente humana jamais engendrou: Deus.
Um aspecto peculiar diferencia o debate sobre Deus do sobre qualquer outro assunto: o envolvimento pessoal dos que advogam em defesa da posição da divindade. Por razões que tentarei desencavar adiante, consideram-se críticas ao conceito de Deus e à prática religiosa ofensas pessoais àqueles que acreditam nele e obedecem tal prática. Não deveria ser o caso, pois o que se discute são as idéias, não os debatedores.
Debater é gostoso. É excitante. Principalmente quando se experimenta as idéias aflorando em resposta à pressão aposta pelo adversário. E é uma atividade saudável para o espírito. Ao longo de minha vida experimentei vários desses debates. Entretanto, com frequência saí deles com uma sensação ruim de quem pareceu estar agredindo. Às vezes, a pessoas queridas.
Por que isso?
Deus, no sentido coloquial – ou seja, de que é um ser eterno, invisível, criador de tudo, com infinitos atributos e interessado pessoalmente por cada um de nós – é uma idéia que é replicada nos filhos por pais crentes e se eviscera na psicologia dos humanos de geração para geração. A intenção dos pais é a melhor possível. Esses filhos, indefesos, acolhem a idéia, cultivam-na com carinho e dedicação ao longo de suas vidas, e, por sua vez, passam para os filhos. Este processo – não a veracidade ou plausibilidade da idéia – é o que a faz tão persistente e duradoura.
O ambiente social realimenta o processo. O Deus é representado pela religião do local onde o sujeito reside. E esta propicia uma comunidade de iguais, um ambiente de auto-reforço, hábitos, regras e preceitos de conduta comuns. O enraizamento da idéia é martelado através de cerimônias e rituais que, por um lado marcam os momentos mais significativos da vida humana: nascimento, maturidade, casamento, formatura, morte. Por outro lado, os preceitos religiosos são igualmente invocados nos momentos mais mundanos do dia-a-dia do sujeito: despertar, se alimentar, cruzar um altar, entrar em campo (jogadores de futebol se benzem), fazer sexo (certas religiões têm regras sobre com quem e como), ir dormir, e – pasmem – até usar o toilete (certas religiões determinam com que mão deve-se limpar).
“Não se pensa Deus. Deus se sente.” – dizem os religiosos. E o sentir, qualquer que seja ele, é falaciosamente confundido com o próprio Deus. “Se sentes, é porque Deus está contigo”. Como se o acreditar em Deus fosse pré-requisito para se amar, se comover, se sentir grato, ou ser bom. Não é.
Essa confusão entre o Deus e o sentir é o que gera o problema do debate: considera-se que atacar a idéia de Deus significa atacar o que o indivíduo é e o que ele, em sua mais recôndita intimidade, sente.
Colocar em dúvida a idéia de Deus tem implicações duras para a vida da pessoa que foi crente. Significa considerar mudanças em sua vida que afetarão suas relações sociais, seu amor-prório e irão requerer muita coragem. A oposição é grande em todas as áreas de atuação: sociedade, amigos, família, vida interna consigo mesmo. Não se abandona a fé sem se ter uma convicção que supera tais dificuldades.
Para um crente, debater Deus e a religião é, portanto, expor a fragilidade das razões pelas quais se tem tais convicções diante de um interlocutor hostil e extremamente convicto. E nesse aspecto, este último sempre tem a vantagem de poder pensar livremente e explorar com amplidão todas as possibilidades. O crente tem limites. Não de inteligência ou conhecimentos ou experiência. Há aspectos que não podem ser pensados por ele, pois refletem-se em pecados e blasfêmias. Território proibido. O livre pensador, não. Este tem acesso a tudo. E apresenta esse tudo no debate, causando ansiedade, frustração e, ao fim, ira ao crente que se engaja em debates sobre Deus.
Em síntese, para se debater Deus necessita-se inteligência sim. Para se tirar proveito pleno de debates, seja como debatente, seja como audiência, há que se usar da inteligência para distinguir-se das pessoas as idéias. Deixem-se de lado os melindres pessoais e todos saem ganhando.