Para mim, ao contrário de elegante, o conceito vernacular de Deus é tosco. Existe para explicar tudo o que o intelecto humano ainda não conseguiu abraçar. Se existe um lapso no conhecimento, Deus é invocado para preencher o buraco. Nesse aspecto, o conceito é destinado à gradual inutilidade, à medida que a Ciência elucida os mistérios da natureza.
Semelhante ao conceito de Deus, vejo a cosmologia de Anaximandro, um dos filósofos pre-socráticos que, diante do grande dilema que dominava os atomistas no século VI A.C. sobre a substância da qual todas as coisas são feitas, não teve dúvidas: a substância primordial é o “apeiron (ἄπειρον), uma substância qualitativamente indefinida e quantitativamente infinita”. Ele inventou a palavra!
Da mesma forma serve o conceito popular de Deus. Quem criou tudo? Deus. Quem causa os terremotos? Deus. Quem faz o meu time ganhar ou perder? Deus. E por aí vai… Como dizia Hitchens, “aquilo que explica tudo, na verdade não explica nada”.
Peguem-se os atributos de Deus: um ser eterno, onipotente, onisciente, onipresente, infinitamente bom e diretamente interessado com as questões pessoais de cada ser humano. Depara-se com uma mistura de características conflitantes que, quando antepostas a situações reais do dia a dia da sociedade humana, conduzem ao repúdio do conceito. A não ser que, ao tentar fazer isto, o pensador se vê diante de inculcações e preconceitos impressos em sua psique desde criança, que imobilizam o intelecto a prosseguir por essa linha.
Vejamos um exemplo: uma criança inocente é violentada e morta. Um ser com infinita sabedoria, infinita bondade e infinito poder não poderia consentir nisso. No entanto, vemos isso acontecer toda hora nos noticiários. Sinal de que Deus não tem, na melhor das hipóteses, um dos atributos mencionados: ou ele não ficou sabendo, ou ele não estava lá, ou ele não teve o poder de evitar, ou ele simplesmente não se lixou pelo acontecido. Ou ele, com tal descrição, não existe.
A idéia de um criador de todo o universo que se interessa pessoalmente por cada um dos míseros seres humanos que vivem num mísero planetinha num canto da vastíssima extensão do universo é ridícula. Certamente foi engendrada por pessoas simples, cujo conhecimento e sabedoria não iam muito além das cercanias de seu vilarejo, há milênios atrás. A virulência do conceito, entretanto é impressionante, e isso eu sou obrigado a conceder, pois até hoje, tal absurdo é aceito incontestavelmente por pessoas de prestígio em nossa sociedade.
Elegância é conforto, é simplicidade, é adequação, é prazer estético, é satisfação emocional e intelectual. É a faca amolada, que faz o corte sem exigir esforço do operador. É a luva que veste perfeitamente. É o nada sobrando nem faltando. O conceito Deus veste tudo, mas nos deixa com o traseiro de fora quando é servido com mistérios que não fazem sentido. É a geléia irracional que permeia o mundo e atola o progresso da civilização.
Pode ser muita coisa; elegante, não.