Para todos os efeitos práticos, vamos falar de uma Festa. Mas, como uma Forma socrática, o conceito não encontra na realidade um exemplo ilustrativo.Talvez tenhamos que redefinir a coisa e incluir nela outro conceito, o de Extravagância, para chegar perto do que aqui estamos a nos referir.
Bom, para começar, a Festa do aniversário do Gideon acontece em Stockcross, Newbury, mais ou menos a uns 100 km ao oeste de Londres, no Reino Unido. Um spa hotel de 49 quartos foi exclusivamente alugado para os convidados. Tudo cortesia do aniversariante que completa suas 50 primaveras.
À chegada, ontem, fomos saudados pelo anfitrião, esposa e a mestra-de-cerimônias, devidamente trajada de domadora de leões. De sua cartola, sorteamos o quarto: 119, um quarto com quatro ambientes – sala de estar, quarto de dormir, banheiro e closet – padrão cinco estrelas.
Após um curto intervalo para desfazer as malas, tomar um banho e nos vestirmos, seguimos para um dos bares do restaurante do hotel, onde a primeira atividade estava para se iniciar às 8 horas. Somos quarenta hóspedes. Champagne foi servida, acompanhada de conversa amigável.
A primeira surpresa aconteceu quando fomos orientados para deixar o quentinho do restaurante para o frio de 4 graus da escadaria do jardim adjascente. Convidados à posts, heis que diante de nós, inicia-se um espetáculo pirotécnico de cair o queixo. Dura não menos que dez minutos, durante os quais o frio foi esquecido completamente.
De volta ao quentinho do bar, onde as lareiras acesas davam ao ambiente um delicioso e aconchegante ar, fomos conduzidos ao restaurante onde música ao vivo e a segunda surpresa nos esperava.
As mulheres iriam para uma área e os homens para outra, protegida por cortinas. Algumas reclamações são ouvidas, mas levadas na brincadeira. Tomei um assento próximo a Trishul, um amigo de longa data, me apresentei aos vizinhos e observei a organização dos elementos de decoração. Em cima da mesa, soldadinhos de chumbo, cachimbos, algumas cartolas, bigodes postiços. O cardápio era impressionante: entrada de fois gras, fillet mignon de prato principal e algo delicioso de sobremesa. Bebida de primeira era servida sem parar, numa mostra de requinte e sofisticação. A conversa era contínua e agradável, mas o clamor que vinha do lado das mulheres era muito mais prominente.
Estava no meio do meu fillet, quando, de repente, surgem Vania e Sabhita (a esposa do Trishul) e, sem perguntar, agarram nossos pratos e saem com eles. Imeditamente, um garço aparece e pergunta pelo meu prato. Sumiu. Ele cortesmente me diz para não me preocupar e, um novo prato de fillet mignon, quentinho é colocado diante de mim.
Foi quando constatei o que estava acontecendo. As mulheres, na parte de baixo do restaurante estavam sendo tratadas diferentemente. Prá começar, as suas mesas eram de madeira nua, sem toalha, sem guardanapos. Os garçons chegaram com pratos de arroz e galinha, colocaram numa mesa à parte e anunciaram: – “Garotas, a comida está servida. Cada uma pegue a sua.” Elas tinha que se levantar e ir pegar o seu prato. Inicialmente elas acharam meio esquisito, mas fizeram sua filinha organizadinha e cada uma se serviu.
Quando o vinho (de tampa de rosca!) começou a acabar para elas e uma delas pediu mais vinho, foi respondida, em voz alta pelo garçon: – “Se quizer mais vinho, tem que ir pedir pro Gideon.” Foi aí então que elas entenderam o que estava acontecendo e a diferença do tratamento que elas estavam tendo, comparado com o que os homens recebiam. Revolta total. A maioria das mulheres levou na brincadeira, como a Vania e a Sabhita. Se levantaram e invadiram o clube dos cavalheiros para pleitear seus “direitos”. Algumas das esposas entretanto, não ficaram nada satisfeitas com a brincadeira. Quem conhece o Gideon, e está acostumado com suas brincadeiras politicamente incorretas de tripudiar feminismo e exaltar o império britânico, não tem como rolar de rir da criatividade da situação e da manifestação super específica de sua personalidade.
A banda tocava Charleston, com os músicos vestidos impecavelmente dos anos 20, com fraques, cartolas e gravatas-borboleta brancas. Malabaristas e mágicos entraram em ação, entretendo os convidados. Os bigodes e cartolas começaram a ser usados por todos. A dança inicou-se e ficou logo animada – agora com os sexos devidamente misturados – e durou até a madrugada.
Fim do dia um, ou seja a véspera da festa propriamente dita.